MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia

Pequena retrospectiva acerca do dia de abertura do MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia

A obra da arquiteta Amanda Levete, na passada quarta-feira (dia de abertura), atraiu cerca de 20 mil pessoas a Belém. De facto, o MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, apesar de rodeado por uma enchente de pessoas, fazia-se sentir através da sua arquitetura futurista e da sua ligação com o meio envolvente.

Estes sete mil metros quadrados de construção quase escultórica, ao contrário do que possa imaginar, não desafiam de maneira nenhuma os edifícios históricos da cidade de Lisboa mas sim, harmonizam o espaço fazendo-nos sentir como que numa enorme varanda com vista para o Tejo através do seu teto que é também miradouro e da sua vista panorâmica virada para sul.14628029_1167573539965300_235539583_n

Após entrarmos no MAAT, toda a visita se torna quase intuitiva pois as paredes curvas e os seus espaços ovais, fluem calmamente ao receberem a luz refletida nas claraboias existentes. Esperava-se, então, que a exposição de abertura estivesse à mesma altura que aquela estrutura futurista.

O espaço mal aproveitado e uma escolha “pobre” nas instalações foi o que deixou mais gente a desejar, não porque as obras de arte escolhidas não tenham valor, pois eram obras com o seu quê de pensar, o seu significado forte, mas no dia de abertura, o edifício parecia pedir mais. Seria por falta de dinheiro? Ou seria uma abertura ao público um pouco apressada por causa dos media? Os portugueses voltarão lá de certeza e assim aproveita-se não só a experiência que Amanda Levete nos proporcionou mas também o facto de ser grátis até Março de 2017.

File#1: Conferência “Cartel politico en Chile: 1970-1973”, por Mauricio Vico

sem-nomebelas-artes ulisboa, 4out. 2016

 A década de 60 destacou-se pela agitação social e política em todo o mundo. No Chile, isto era sinal inequívoco da clausura imposta até então pela política daquela altura. Nesse momento conturbado, as diversas manifestações artísticas foram a chave para a elaboração do caminho para o socialismo, especialmente durante o governo de esquerda de Salvador Allende. É por causa destas manifestações artísticas relacionadas com o governo de Allende que Mauricio Vico (designer, professor e investigador do Departamento de Design da Universidade do Chile) veio conversar connosco sobre o cartaz chileno nas suas fases revolucionárias, nomeadamente durante a revolução chilena de 1970 – 1973.

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Yo estoy con el Compañero, autor desconhecido, 55 x 77 cm, impressão offset, 1970

O cartaz chileno teve uma enorme  importância  durante a revolução chilena dos anos 70. Este servia como objeto chave para a propaganda política da ditadura e democracia chilena e tinha como temas principais a liberdade, pátria, desonra, injustiça, passado glorioso e história da nação, recorrendo sempre ás ideias e inspiração dos militantes, políticos e cidadãos. Mauricio Vico, reuniu uma série de exemplos de grande valor gráfico e explicou-nos tanto a importância dos mesmos consoante o contexto histórico como as técnicas usadas naquela altura.

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Brigadas Ramona Parra – MAC, autor desconhecido, 55 x 77 cm, impressão offset, 1971

 Um dos cartazes que exemplifica bastante bem o “estilo” do cartaz político chileno tem o nome de “Brigadas Ramona Parra – MAC”. Este cartaz é uma serigrafia (técnica muito usada) de 1971 e de autor desconhecido, e nele está representada mulher como símbolo da igualdade, a foice e o martelo como símbolo dos trabalhadores e do povo e o punho fechado símbolo internacional dos antifascistas. A sua composição, assim como a escolha das cores, lettering e os próprios desenhos fazem deste um cartaz hibrido, tal como Mauricio Vico disse na conferência, no sentido em que nele conseguimos ver todas as influências do cartaz chileno: a pop art, o cartaz cubano, a arte psicadélica e a influência artística dos EUA em geral.

O designer e professor, não nos   deixou ir embora sem ainda nos falar do cartaz politico chileno de 2006 a 2011. Após a guerra civil de 1973, impôs-se o governo do general Pinochet, um governo de direita, que fez com que se desenvolvessem movimentos estudantis. Ainda hoje, os estudantes mostram-se descontentes, principalmente com os direitos na educação, e através dos posters dão conta do distanciamento dos políticos, tal como antigamente. A parte disso, quais são as diferenças dos cartazes de Allende para os de pós Pinochet? Hoje, são cartazes coletivos, cada vez mais duros e frontais, representam a crise, a rebelião, o descontentamento e fazem de propaganda a manifestações que terminam sempre em violência. Apesar do uso de lettering manuscrito, o poster chileno continua a ser muito claro e proporciona sempre uma boa leitura.

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Recuperar el Cobre, Comando Gráfico Recarraben, 96,8 x 65,7 cm, impressão offset, 2011

Esta conferência transmitiu um bom olhar sobre a situação política do chile nos dias de hoje e antigamente, e a importância das artes gráficas, nomeadamente o design, como imagem dos ideais políticos. Apesar das diferenças linguísticas, Mauricio Vico conseguiu manter uma boa relação entre orador/espectador e apresentou o tema de modo a que toda a informação necessária fosse referida.

START: Zero#Zero – Aerograma

Como primeiro trabalho, foi-nos proposto, no seguimento da visita ao Jardim Botânico Tropical em Belém e visionamento do filme Cartas da Guerra de Ivo Ferreira no cinema Ideal, que registássemos 3 imagens fotográficas e escrevêssemos um aerograma a enviar aos nossos pais. Essas 3 imagens teriam que transparecer aquilo que tínhamos sentido durante a visita e visionamento do filme. Uma seria para colocar no aerograma a ser enviado, outra teria de ser colocada no Instagram com a hashtag #dcmpstart2016 e outra a entregar aos professores.

Um aerograma é uma carta que se envia por correio aéreo, sem necessidade de ser subscrito. Foi inventada pelo literário Fernando Pessoa e tem uma tarifa diferente da que se envia por correio normal. Este foi um meio muito usado durante a Guerra Colonial para as famílias comunicarem com as tropas destacas em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, em virtude de ser um meio de comunicação gratuito, mantido pelo Serviço Militar Postal.

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Visionamento do filme “Cartas da Guerra” de Ivo M. Ferreira

Na passada quarta-feira, dia 21 de setembro, no âmbito da unidade curricular de Design de Comunicação e Metodologia de Projeto, foi-nos pedido que visionássemos o filme Cartas da Guerra de Ivo M. Ferreira, no cinema Ideal (Chiado). O visionamento deste filme estava diretamente relacionado com a primeira atividade de projeto do programa Welcome (to) DC: a START: ZERO#ZERO.

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Frame de Cartas da Guerra, Ivo Ferreira, 2016

 

Cartas da Guerra usa as cartas de António Lobo Antunes, escritas quando o autor tinha sido enviado para Angola durante a Guerra Colonial de Portugal nos anos 70 para exercer a função de médico. O argumento usa as suas cartas, enviadas à sua esposa, para demonstrar o amor que sentiam um pelo outro, e dessa maneira Ivo Ferreira captura a vida conturbada de um soldado na guerra.

Através das cartas de António Lobo Antunes conseguimos ver nele um autor que domina totalmente uma linguagem robusta cheia de poder descritivo mas também uma linguagem intelectual completamente impulsionada pelas emoções sentidas. Ivo Ferreira, usa essas cartas de modo a não só ilustrar a dor da separação mas também para criticar a ditadura portuguesa que enviou soldados para combater em Angola.

A cinematografia, que passa pelas variadas cenas, desde António (Miguel Nunes) em viagem de barco até à paisagem angolana, aos horrores sangrentos provenientes desse conflito, é nos apresentada, durante todo o filme, a preto e branco e acompanhada da narração das cartas feita pelo destinatário, Maria José Xavier da Fonseca e Costa (Margarida Vila-Nova) de modo a provocar-nos automaticamente a sensação de um nó na garganta.

Para além de uma cinematografia que contribuí para o sucesso da narrativa, temos um conjunto de músicas provenientes de compositores do século 20 como Fernando Lopes-Graça e Gyorgy Ligeti.

Durante o filme, o autor vai sentir em primeiro lugar a saudade e o desejo de voltar a ver a esposa que, para além disso, estava grávida, para depois sentir, nos meses seguintes, a indignação e frustração que sente pela guerra porque esta não só o separou da sua esposa e filha mas também mata injustamente homens em função de um conflito desnecessário.

António descreve o seu ódio pela cor verde, permanente no traje militar, na paisagem e no acampamento, e apesar de Ivo Ferreira filmar todas as cenas a preto e branco, consegue transmitir-nos muito bem a sobrecarga do protagonista simplesmente juntando as imagens com as palavras. À medida que o filme vai avançando, notamos uma mudança clara no discurso, tornando-se completamente obcecado por Maria José.

 

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Frame de Cartas da Guerra, Ivo Ferreira, 2016