“Dispersa-te” (Poemário)

Alguns dos spreads presentes no Poemário solicitado por Duarte Corvo:

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Guião – Filme do Bairro

CENA 1

Cenário – Local onde decorre a reunião semanal entre amantes da poesia. (Este é simples, círculo de cadeiras, com brinquedos de criança espalhados pelo chão.)

GASPAR (com um postura claramente incomodada)

Não é cedo para estar a beber?

ELIZABETH
Tu bebes quando tens a necessidade de aliviar a tua alma, isto é assim meus caros, não há tarde nem cedo para começar.

ÁLVARO (com uma atitude cínica e apática)

Ama o que fazes que qualquer dia deixarás de o fazer.

(A conversa desencadeia-se, revelando gostos e atitudes dos Outros:
A carência de Gaspar.
A perversidade de Roberto.
O silêncio misterioso de Maria.
A curiosidade desperta de Creta.
A atitude solida de Corvo.
O realismo desencorajador de Elizabeth.
A indiferença de Álvaro)

ROBERTO
Porque é que estão as coisas da Maria no chão?

CRETA
Acho que ela ainda está a dormir..

ROBERTO (com uma voz provocadora)

Achas?

CRETA (firmemente, num tom defensivo)

Acho. Não tenho a certeza, não estou ao pé dela.
..Se calhar ainda está no parque.

ROBERTO (malicioso)

Cá para mim foi raptada ou… violada.

GASPAR (Claramente agitada e perturbada)

Não digas isso!!

ELIZABETH
Não diz porquê? Se calhar até é verdade.

ÁLVARO
Há que ser realista.

MARIANA
Pode só estar no mundo dela..
(…)
Posso ver essa revista?

ROBERTO
Podes.

ELIZABETH
Para veres cus e mamas? É isso que o Roberto passa a vida a ver, não é..

ROBERTO
Mas tem algum mal, ver cus e mamas?

ELIZABETH
Eu acho que não, acho que faz pior beber de manhã… mas é assim, cada um a sua cena, não é?
(…)
(todavia Mariana folheia a revista, cautelosamente)

ROBERTO
Então Creta, gostas da revista? Se calhar não faz muito teu gosto…
(…)

CRETA
Eu não percebo porque é que a Maria Felicidade está ali tão calada.
(Maria mantém-se em silêncio, com o seu olhar atento e controlado)

ELIZABETH
Teve uma noite muito atribulada ontem..

ROBERTO
É o costume.

GASPAR (com um reflexo protetor)

Não sejam assim!

ELIZABETH
Nós estamos a ser realistas! Nem toda a gente é feliz e contente..

ROBERTO
Só porque te chamas felicidade.. não tem nada a ver com isso.

CORVO
..lá na minha zona há malucas dessas. Nem sabem o que eu faço com elas..

ÁLVARO (trocista)

Que é que fazes com elas?

CRETA (curiosa)

Que é que fazes com elas?

GASPAR (preocupada)

Que é que fazes com elas?

CORVO
..Primeiro, levo-as para casa. E depois..

ROBERTO
Calma lá, que isto é interessante..

CORVO (hesitante)

(…) e depois, a umas, arranco-lhes a cabeça

ÁLVARO
Devias ter cuidado com o que dizes.

ELIZABETH
Qualquer dia levas uma porrada.. é só meteres-te com a gaja errada.

CORVO

Elas caem todas.

ELIZABETH
Talvez as burras…

CRETA
A Maria Felicidade caía..

ROBERTO
Ela nem diz nada..

GASPAR
Parem!!
(A conversa disperse-se, e o grupo começa a discutir)

ELIZABETH
Isto é o que acontece quando a miúda não está cá. Parece que a gente esquece um bocado o
que se passa lá fora..

CORVO
Nunca pensei dizer isto.. mas eu até gosto da miúda.

CRETA
Ela é alegre.

ÁLVARO
É uma criança. O mundo dela é mais fácil.

CRETA
Também não sei como é que ela se juntou a nós…

GASPAR
É verdade..

CORVO
É por isso que eu gosto dela.. Porque ela não tem medo.

ÁLVARO
É verdade que é uma criança interessante.

CRETA
Se tivesse medo, era contrário ao seu nome.. (irrequieta com a máquina)

ROBERTO
E esse gravador, já podias parar com isso?

CORVO
Sinceramente também já me está a irritar.

ELIZABETH
Não vejo qual é a piada de andares a gravar, honestamente.

CRETA
(hesitante) Satisfaz.

ROBERTO
Satisfaz o quê?

CRETA
Necessidades.

ROBERTO
Tens desejos de ouvir as nossas conversas que nós temos, é isso?

CRETA
Não são as conversas!! Eu nem estava a gravar..

ÁLVARO
Não gosto de ser gravada em conversas privadas.

CRETA
Eu não estava a gravar. Eu não gravo conversas… eu gravo sons.

CORVO
Sons de quê?

CRETA
(com um tom surpreendentemente sereno) Sons… violentos.

GASPAR
..e gostas?

CRETA
Gosto.

ROBERTO
Gostas de violência?

CRETA
Gosto.

ELIZABETH
Olha!! Junta-te aqui ao nosso caro amigo (apontando para a Nádia) que gosta de partir a cabeça às miúdas, não é…

CRETA
Ele é demasiado violento, tem um problema.

CORVO
Devias ouvir a falar as vozes que estão na minha cabeça.. elas sim, são violentas.

CRETA
Eu gostava era de ouvir falar ali a Maria Felicidade, mas ela não diz uma palavra..
(a conversa dá rumo a um momento de gozo contra a Maria Felicidade, que sem abrir a boca, reage de forma revoltada contra as insinuações e ideias que criam dela.)
(entretanto, Álvaro brinca insistentemente com o isqueiro)

CORVO
E tu, não paras com isso? És.. piromaníaco, ou quê?

GASPAR
Vais-te queimar..

ÁLVARO
É divertido. É um perigo que salvou a Humanidade.

ROBERTO
O fogo? Salvou a Humanidade? Então porquê?

ÁLVARO
Achas que viveríamos como vivemos, sem o fogo?
..Qual é a razão da existência do fogo? As pessoas têm medo de coisas que as ajudam na vida. Em vez de aproveitar o que vêem, aproveitar o que têm à volta.. acabam por desperdiçar a vida.

GASPAR
Eu nunca mandei um isqueiro para o lixo.

CRETA
Deves ter uma grande coleção, tu..

GASPAR
(ri-se, nervosamente) É verdade..

ÁLVARO
Não te devias agarrar a nada de material.

ELIZABETH
Como tu te agarraste ao fogo? Estás agarrada ao isqueiro. A partir do momento em que gostas do fogo, tens que te agarrar a algo que o crie. O fogo não aparece do nada..

ÁLVARO
Há uma diferença entre estar agarrado, e aproveitar de algo que nos é dado.

ELIZABETH
Acabaste de dizer que não precisavas de nada.

ÁLVARO
De material, não. Não é uma necessidade.
(com um desvio na conversa, o grupo começa de novo a atacar a Maria Felicidade, tendo apenas o Gaspar a defendê-la.)
(…)

ÁLVARO
Cá para mim ela não faria falta aqui.

GASPAR
Todos fazemos falta.

ÁLVARO
Como?

GASPAR
Cada um tem a sua razão de estar aqui.

ÁLVARO
(muito seguro das suas palavras) A maior parte de nós acaba por ser insignificante.

ELIZABETH
Olha, agora falaste!

ÁLVARO
Mas só acabas insignificante se te o deixas ser. Para ser grande, sê inteiro. Sê tudo o que és, e faz o teu melhor para sucederes o máximo na tua vida.

CORVO
Ninguém sabe quem tu és.

ÁLVARO
Não preciso que ninguém saiba.

CRETA
(hesitante) …Grande parte de nós aqui já cometeu um crime. Porque é que nós não.. não nos denunciamos a ninguém?

ROBERTO
Eu nunca cometi um crime.

CRETA
(num tom de ironia) Dizes tu.

ROBERTO
Que eu saiba.

CORVO
Quantas mulheres já violaste?

ROBERTO
Nunca violei ninguém.

CORVO
Dizes tu.

ROBERTO
(com um ar convencido) Elas vêm porque querem, não sou como tu.

CORVO
(com uma voz monótona) Não é bem a mesma coisa.. Eu mato-as.

ELIZABETH
(sarcástica) Pois, eu acho que isso é a parte que elas não querem..

ÁLVARO
(com um sorriso frio) Que é que interessa o que elas querem. Desde que o faças bem e não te metas em sarilhos.

GASPAR
(claramente perturbada) Eu não sei como é que vocês conseguem falar assim das mulheres..

CORVO
Muheres, homens..

ROBERTO
É o que vier, não é? (riso mesquinho) Assim é que é!

ELIZABETH
Da mesma maneira que falas dos pretos, dos brancos, da mesma maneira de que se fala agora dos refugiados… simplesmente fala-se.

GASPAR
(tentando, sem sucesso, manter algum ânimo na sala) Esqueceste-te dos chineses.

ROBERTO
Não estamos a excluir aqui ninguém, calma lá…

ELIZABETH
Ah, não! A criança já se excluiu sozinha, claramente decidiu que nem queria vir..

GASPAR
(com um instinto defensivo) Ela não o fez de propósito!!

ELIZABETH
Mm, se ela quisesse cá estar provavelmente já cá estaria, não é..

ÁLVARO
Se eu tivesse escolha provavelmente também não teria vindo.

ROBERTO
Bem tu (virado para Gaspar) estás muito a par da situação da criança..

GASPAR
(suspiro dececionado) Eu pelo menos preocupo-me com ela..

ROBERTO
O que é que farias se eu fosse ter com ela?
(Gaspar mantém um olhar persistente e intimidante direcionado à chantagem de Roberto, sem ceder às suas ameaças)

ÁLVARO
Achas mesmo que és importante na vida dela?

GASPAR
Enquanto eu dou uns chutos, ela dá outros.

FIM

File#3: III Edição dos Encontros de Design de Lisboa

Na sua terceira edição, os Encontros de Design de Lisboa puderam contar com oito oradores, provenientes das áreas do design, da arquitetura e ilustração, que nos trouxeram os mais variados temas inseridos no conceito escolhido para os encontros deste ano: DESIGN, IDENTITY AND COMPLEXITY. Muito mais do que através da presença destes designers e arquitetos, estes Encontros de Design, fizeram-se sentir do outro lado do palco, onde o número de espectadores era superior àquele que o Grande Auditório da FBAUL podia suportar.

De entre as oito palestras apresentadas, as que me captaram mais interesse foram a de Mario Trimarchi (The smiling objects) e a de Teal Trigs (Sites of graphic design criticism: new spaces, new critics).

The Smiling Objects

Mario Trimarchi é um arquiteto e designer italiano que, para além de pertencer à geração “à mão livre”, acredita que o desenho tem um papel importantíssimo pois permite-nos entender melhor as coisas que nos rodeiam. Para além de ter feito parte dos mais variados ateliers, o arquiteto designer, criou uma série de produtos paradigmáticos. É sobre esses e outros trabalhos seus que Mario veio conversar e dar a conhecer o seu método de criação.

Mario, começou por uma pequena reflexão sobre a nossa ligação com os objetos, questionando “porque vivemos em conjunto com estes objetos?”. Estamos habituados a pensar que por detrás da cada objeto há uma história quando talvez por detrás dos objetos não exista absolutamente nada, e possivelmente só os estaremos a ajudar a passarem de moda, a esgotarem a sua própria função. O designer explica ainda que talvez fosse melhor concentramo-nos menos nos objetos. No entanto enquanto designers, Trimarchi afirma que o ideal seria pensar em projetá-los corretamente e não com um propósito necessário, pois só assim eles serão capazes de sorrir para nós, nem que seja ocasionalmente.

Esta reflexão veio a propósito de entender melhor o seu ponto de vista e consequentemente o seu método de trabalho, este, que teve sempre por base a sua investigação aprofundada sobre o desenho, fê-lo criar uma série de objetos paradigmáticos. Os projetos surgiam de desenhos que o designer fazia com o intuito de entender certos aspetos das coisas, e como a incerteza e estabilidade, as mudanças e imprevisíveis assimetrias poderiam fazer parte de objetos físicos. Então, para começar, mostrou-nos o seu trabalho Intanto (em inglês, in mean time) um conjunto de três vasos.

Este trabalho surgiu de uma auto proposta do designer que sugeria desenhar o silêncio, para isso, desenhou as nuvens e com isso entendeu melhor brevidade das coisas. Isso remeteu o seu pensamento para a curta vida das flores quando colhidas para passarem o resto das suas vidas em vasos.

“Flowers, when cut, are accompanied with extreme lightness in this unexpected extension of life in the homes of human beings. These vases are like drops of dew trapped in almost invisible spiderwebs; they float, suspended and very fragile, to silently measure the time and beauty of existence.” – Mario Adicionar ao dicionário

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Intanto, Mario Trimarchi

 

Intanto un fiore, Intanto pochi fiore e Intanto molti fiore diferenciam-se pelo seu tamanho e estrutura metálica que varia em função da quantidade de flores adequadas a se inserirem nestes recipientes. Esta escolha das flores consoante o vaso tem de ser muito cuidadosa, pois cada um deve levar a flor certa, caso contrário colapsa devido ao excesso de peso exercido. Essa é uma metáfora retirada da brevidade incerta da vida das flores, tal como das nuvens. Intanto deixa que a vida das flores se mantenha in mean time como que suspensa no tempo. Mario Trimarchi referiu ainda que, quando as pessoas adquirem estes vasos, perguntam se as caixas estão vazias, tal não é o pouco peso que estes possuem.

Desenhar as ilhas faria agora o designer desenvolver uma espécie de formas de cozinha. Estas apresentam uma forma irregular baseada nos estudos de desenho que Mario desenvolveu. Esta vontade de desenhar as ilhas surgiu de uma lenda que o fez olhar para elas de maneira diferente. A vontade de as decifrar por completo criou essas formas, que aparentam ter a forma de pequenas ilhas com castelos, em silicone branco e preto, prata e cobre, têm como objetivo fazer qualquer um sentir-se criativo.

“These molds are like precious little works of architecture, a bit fossils, a bit contemporary. Islands to put on the table like shiny, expected sand castles containing compositions of foods, magnificent in their ambition, fleeting in their glory.” – Mario Trimarchi

Também muito interessante, foi a criação de uma coleção de objetos aritméticos gerados pela obsessão de desenhar o vento. La Stanza dello Scirocco, é o nome da coleção destes produtos assimétricos com grandes sombras que constroem um novo paradigma para um modo de vida instável, mas otimista. O conceito de desenhar o vento levou o designer a pensar em castelos de cartas. Estes, quando os deixamos de pé, desabam se existir a mais pequena ventania, e essa estrutura instável dispersa-se, de uma maneira algo poética.

Dentro desta coleção, inserem-se fruteiras, candeeiros e peças de joalharia. Cada um dos objetos parecem ser levados pelo vento, quando expostos nesse objeto que transmite sensações de movimento (é o caso das uvas que aparecem na imagem abaixo).

 

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La Stanza dello Scirocco

Trimarchi revelou-se um ótimo designer, distinguido com prémios, e um ótimo orador, já que captou toda a atenção do público presente.

 

Sites of graphic design criticism: new spaces, new critics

Teal Triggs é professora de Design Gráfico e Diretora Associada da School of Communication do Royal College of Art, em Londres. Como historiadora, crítica e docente de Design Gráfico, já proferiu diversas palestras, divulgando amplamente o seu conhecimento. Teal, veio assim falar-nos do papel da crítica do design gráfico.

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Teal Triggs

 

Triggs, começou por explicar que esta área de estudo ainda é subdesenvolvida quando comparada a outras áreas como a literatura, história de arte e arquitetura. No entanto, afirma ainda que, ao longo da história do design gráfico contemporâneo, a crítica tem sido omnipresente no processo de design – seja na prática, através dos briefings e propostas oferecidas pelos clientes ou na própria pesquisa de trabalho, adotando métodos críticos e especulativos.

Apesar disso, Teal contou-nos que o papel estabelecido para os críticos profissionais de design gráfico permanece indescritível, ou seja, só alguns alcançam essa posição. Rick Poynor é um dos poucos que alcançou essa posição. Embora tenhamos a necessidade que existam críticos, não nos devemos esquecer das maneiras únicas pelas quais o discurso crítico surgiu por meios alternativos. Esta área cresceu através das exposições, publicações independentes e mídias sociais. A design alertou-nos para o facto de que não devemos subestimar o valor de textos críticos e críticas visuais feitas por profissionais de design como Kenneth Fitzgerald e Michael Golec.

Teal Triggs tomou como ponto de partida o modelo de Christopher Frayling (escritor e professor inglês) da pesquisa de design e aplicou-o à prática da crítica. Tentou mostrar-nos o que podemos aprender para a crítica do design gráfico, sendo que estamos numa era cada vez maior no que toca à complexidade da informação.

No fim da palestra, já num tom mais descontraído, Teal apelou a que, num próximo ano em que voltasse à FBAUL nós, alunos, estivéssemos mais críticos.

Sinopse do Filme dos poetas

Pouco iluminado é o espaço onde o grupo se reúne. Duarte Corvo, Maria Capaz, Maria Felicidade, Gaspar Montalvão, Creta de Campos, Álvaro Portilha, Elizabeth e Roberto são os poetas membros desse grupo, pessoas diferentes do resto da sociedade, rejeitadas por aquilo que é o padrão desta. Naquele local, os oito poetas vão chegando e sentando-se nas apenas oito cadeiras existentes. Ao citarem os poemas escolhidos para aquela madrugada dão por falta de Maria Capaz e refletem sobre isso. Heis o inicio de uma discussão em volta da razão pela qual se encontram naquele local. Não se percebe se chegarão a algum lado, mas vão discutindo, uns exaltados, outros isolados e muito marcados pela falta de Maria Capaz.