“Corvo”: Sinopse

FILME DO OUTRO: Corvo (2016)

Duarte Corvo (27 anos) sofre de esquizofrenia, doença que não só o torna agressivo como também o faz viver uma realidade imaginária. Todos os dias, deambula pela cidade de Lisboa, onde reside, em busca de saciar a sua sede de corvo. Entretanto, algumas pessoas cruzam-se no seu caminho. Enquanto caminha, observa-as e estuda-as, essas agem normalmente mas para corvo, todos os sons,  gestos e manias se tornam perturbantes. Nesses momentos há sempre a possibilidade de acontecer uma tragédia.

Mapas psicogeográficos e a Teoria da Deriva – pesquisa

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Psicogeografia

Concebida como “ciência” destinada a analisar e decifrar as interações entre humanos e contextos ambientais, a Psicogeografia avalia os efeitos do meio ambiente, ordenado conscientemente ou não, sobre o comportamento afetivo e os sistemas preceptivo e cognitivo dos indivíduos.

Teoria da Deriva

A Teoria da deriva é da autoria do pensador situacionista Guy Debord. Foi criada em 1958 e publicada, em esboço, na Revista Internacional Situacionista. A deriva é um procedimento psicogeográfico: estudar os efeitos do ambiente urbano no estado psíquico e emocional das pessoas que a praticam. Partindo de um determinado lugar, a pessoa ou grupo que se lança à deriva seguirá uma rota indefinida, deixando que o próprio meio urbano ‘os leve’ ao acaso, pelo caminho que segue.

Quem deriva terá no entanto todo o interesse em traçar um mapa do seu percurso. Esse mapa ilustrará anotações que servirão para compreender os motivos que o leva a seguir este ou aquele caminho: virando à direita ou à esquerda e não seguindo em frente, parar em certa praça e não em outra, perceber em suma por que razão a mente induz sensações agradáveis ou desagradáveis.

Tem a teoria em vista transformar o urbanismo, a arquitetura e a cidade. Na prática, consiste em construir ou reconstruir um espaço em que todos os habitantes são agentes construtores e em que a cidade é vista como um todo.

Estas ideias, formuladas pela Internacional Situacionista (movimento internacional de cunho politico e artista) entre as décadas de 1950 e 1970, consideram que o meio urbano em que vivemos é motivador da deriva, tornando a cidade um espaço de liberdade.

Guy Debord

1968 foi um ano de revoltas, considerado por alguns como o ano das revoltas mais importantes do século. Na França, país que desencadeou todas as manifestações, Guy Debord comandava a Internacional Situacionista, grupo de intelectuais críticos da sociedade daquela época, que tinha como base teórica sua maior obra: “A Sociedade Do Espetáculo”. Guy Debord foi um filósofo, cineasta e crítico cultural francês. Dentro de toda sua participação política, principalmente nos eventos de maio de 68, esteve envolvido com a fundação e manutenção da Internacional Situacionista – grupo dedicado à crítica daquilo que ele chamou de sociedade do espetáculo, uma sociedade mediada por imagens, onde a lógica do intercâmbio mercantil atingiu toda a vida cotidiana.

Os situacionistas e a cidade

“Sabe-se que no princípio os situacionistas pretendiam, no mínimo, construir cidades, o ambiente apropriado para o despertar ilimitado de novas paixões. Porém, como isso evidentemente não era tão fácil, nos vimos forçados a fazer muito mais”.

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Pode-se notar uma sequência clara de mudança de escala de preocupação e área de atuação do pensamento situacionista. Se inicialmente eles estavam interessados em ir além dos padrões vigentes da arte moderna – passando a propor uma arte diretamente ligada à vida, uma arte integral – logo em seguida eles perceberam que esta arte total seria basicamente urbana e estaria em relação direta com a cidade e com a vida urbana em geral. “A arte integral, de que tanto se falou, só se poderá realizar no âmbito do urbanismo”. Em um primeiro momento, essas investigações propriamente urbanas se referiam à experiência da cidade existente – através de novos procedimentos e práticas: Psicogeografia e derivas – mas também à utilização dessas experiências como base para uma proposta de cidade situacionista. ­

“A pesquisa psicogeográfica […] assume assim seu duplo sentido de observação ativa das aglomerações urbanas de hoje, e de formulação de hipóteses sobre a estrutura de uma cidade situacionista”.

Antropologia Visual

As imagens resumem séries infinitas de dados e dizem muito sobre a perceção que os indivíduos têm do real. Desse modo, concordamos com o potencial da imagem ao permitir a documentação e preservação de fatos sociais, os quais, segundo Marcel Mauss são feitos da soma entre os fenômenos sociais e sua representação. Apesar desses pressupostos, é preciso ter cuidado para não se retificar a questão da imagem como uma forma de apreensão da verdade e, menos ainda, incorrer no erro de achar que a imagem captura o real tal como ele é. Uma coisa é dizer que a imagem condensa representações. Outra, aqui considerada perigosa, é dizer que a imagem representa o real, no sentido de mostrá-lo tal como é. Compreendemos o real como uma construção que depende de sua apreensão e, nesse caso, será sempre algo subjetivo e que não existe de forma puramente objetiva.