File#2: Visita guiada “É uma casa portuguesa. De certeza?” e sessão de jogo “Eles andem aí. O jogo para todas as carteiras” no Arquivo 237

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É uma casa portuguesa. De certeza? foi a questão imposta no início deste roteiro, integrado no programa relacionado com as exposições E se a política acabasse amanhã? dos finalistas de design de comunicação da FBAUL, alertava à falsa Lisboa, criada pelo excesso de turismo, apelando ao pensamento político de modo consciente e informado.

A visita guiada, com início na Fabrica Features, levou-nos por uma rota de pontos comerciais onde o principal consumidor é o turista e não o cidadão português. Lisboa está na moda, e acolhe cerca de cerca de 35 mil visitantes por dia e, como consequência disso, o comércio apropria-se do que é o produto tradicional criando novos produtos turísticos, estes, vendidos como autênticos.

O primeiro ponto comercial foi a Padaria Portuguesa, esta tem o conceito de trazer o que eram as padarias tradicionais do antigamente. No entanto, para além dos preços nada convidativos para os portugueses, toda a sua imagem também como os seus produtos, fazem com que nada seja bem tradicional mas sim uma nova versão do tradicional, uma destinada apenas ao turismo, destinada àqueles que enchem a baixa lisboeta com o desejo de experimentar o que de mais há português e alfacinha. De seguida, chegámos à Manteigaria. Antigamente esta fazia parte de uma manteigaria, mas recentemente reabriu como sendo uma fábrica de pastéis de nata, e o seu principal objetivo era ultrapassar os famosos pastéis de Belém. Neste pequeno espaço, é quase impossível meter um único pé, pois encontra-se, durante todo o dia, atolado de turistas ansiosos por experimentar estes pastéis. A manteigaria que antes se destinava a comercializar queijos e manteigas, vende agora caixas de pastéis de nata e pouco mais: café, chá, copos de ginjinha e leite com chocolate.

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Os próximos locais passavam por uma série de lojas de souvenires, estas que em maior parte, eram de comerciantes estrangeiros, com produtos de baixa qualidade e baixo custo vendidos por preços exorbitantes. De entre estes produtos encontravam-se, por exemplo, fatos de banho com a bandeira de Portugal. Foi destes pormenores que os finalistas nos deram a conhecer, como que de um abre olhos se tratasse. Depois de uma casa de fados, a Bairro Arte surgia numa esquina, já dentro do Bairro Alto. Nessa altura, questionavam-nos “porquê abrir uma loja deste tipo, no Bairro Alto?” a resposta era muito semelhante às anteriores dadas, o consumo turístico é o principal investimento dos pontos comerciais que se encontram em Lisboa nos dias que correm. Assim, a visita guiada terminou na Rua da Misericórdia, diante de mais uma loja, onde as sardinhas enlatadas são feitas de chocolate e os Santo António vermelhos e cor de rosa.

Apesar da pouca preocupação acerca de se fazerem ouvir por todos os membros do grupo, e da visita guiada ter problemas na organização do seu conteúdo, a ideia estava lá, e o conceito da visita guiada “não normal” era interessante do ponto de vista de uma política que carece desta nova falsa Lisboa, tão forçada e centrada no turismo.

“Eles andem aí”, no Arquivo 237.

Este era um jogo que tinha a ética e o lucro como principais preocupações. O jogo “Eles andem aí” foi jogado sob a forma de equipas, em que as personagens do jogo eram: Maria, CEO de uma grande empresa e José, um consumidor com necessidades comuns.

De início, as equipas discutiram entre si quem deveria começar o jogo. Chegámos ao consenso de que deveriam ser as Marias a começar. Assim deu-se início ao que seria um jogo em formato de debate, entre duas equipas, sobre uma série de questões fundamentais ligadas à ética ou ganância de um indivíduo, de modo a que, também, ficássemos com uma ideia do que é o pensamento politicamente correto.

Este era um jogo bem desenvolvido não só do ponto de vista comercial, mas também do ponto de vista do design de comunicação, não só pelo seu formato e imagem mas também por essa vertente comunicativa que o jogo carrega.

De porta fechada, as Marias e os Josés, debatiam sobre qual as melhores decisões a tomar perante as situações mais difíceis.

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File#2: Por detrás da exposição – Entrevista com Marta Gaspar e Inês Rodrigues, finalistas de Design de Comunicação

No dia de inauguração da exposição “E se a política acabasse amanhã?” no núcleo da Fabrica Features Lisboa, tive a oportunidade de conversar com duas finalistas de design de comunicação, Marta Gaspar e Inês Rodrigues, e perceber um pouco melhor não só um ponto de vista mais pessoal, mas também (e principalmente) o que esta exposição carrega em si.

Qual o processo mais importante na realização deste trabalho?

Marta Gaspar – O mais importante é perceber primeiro o que é a política. Perceber a importância que esta tem nos dias de hoje, o que é a politica na nossa vida. Perceber também o que podemos fazer de diferente para que o amanhã seja melhor. Perceber que cada um faz parte de um todo. Não é sempre só um indivíduo que vai fazer o dia de amanhã. E perceber que o que está para trás na história e o porquê dela, é super importante, é quase como se fossem uns alicerces para o futuro.

Qual foi a principal dificuldade durante todo o processo de trabalho?

Inês Rodrigues – Foi mesmo lidar com o tema, tendo uma temática tão densa como a politica, podes cair muitas vezes na ideologia, que é uma coisa que nada nos serve, nada me servia a mim trazer qual é que é a minha ideologia, e foi esse o desafio, foi mesmo muito difícil conseguirmo-nos afastar do pensamento ideológico e percebermos o que é que é relevante para os temas conseguirem ser identificados de qualquer ponto de vista, através de qualquer tipo de energia. Por isso é que nós mencionamos muitas vezes a ideia de construção de um titulo. É mesmo isso, porque, “E se a política acabasse amanhã? tu confiavas a burocracia a um outro ser, esquecendo que tu és dono de ti próprio e a construção do titulo significa que tu deves ter noção do individuo e que deves seguir as tuas vontades e como é que tu podes contribuir para um todo. Isso é que é colectivo, é perceberes como te consegues adaptar aos outros e todos em conjunto perceberem como é que conseguem construir algo novo em vez de confiarem tudo ao destino.

Marta Gaspar – Acho que a maior dificuldade é também perceber o que é a politica de modo a não deixar as pessoas caírem na ideia de que isso implica ser de um partido. Isso é o mais difícil.

Inês Rodrigues – Porque tudo é politico: o pessoal é politico, as ideias são politica, crises, coisas sexuais, tudo é politico e isso é uma coisa que as pessoas muitas vezes ignoram e pensam que a politica só acontece ali, no parlamento, e pensam que a participação politica resume-se ao voto, ao dia em que se chega e se mete um papelinho na urna e acaba ali. Nós devemos mostrar que isso é errado, pois a participação politica é todos os dias.

Sendo que este foi um trabalho colectivo, como foi lidar com as concordâncias e discordâncias?

Marta Gaspar – Isso é como tudo e como qualquer trabalho. Principalmente quando envolvemos um tema como a politica, como é óbvio partiu de nós a tentativa de nos afastarmos da opinião formada por uns e outros, porque depois tens um fundamento muito diferente e acabas por não trabalhar diretamente o mesmo tema que os outros. Claro que discordámos todos ao início e é inevitável isso não acontecer.

Inês Rodrigues – É o dilema natural de trabalhar em algo como o design, que trabalhas com gosto, em que o belo é difícil e subjetivo, e a Marta e eu, que trabalhámos na publicação, vimos que pode ser muito difícil resolver questões simples como por exemplo que tipo de letra preferes, que entre-linha preferes, mas é isso que nós enaltecemos outra vez, ou seja, nós vamos ter de abdicar de outras coisas muito pessoais e perceber como conseguimos contribuir para um todo, para trabalhar um esquema coeso. Foi muito difícil trabalhar num tema como a politica e a democracia e nós, oito pessoas, a representarmos uma turma de cinquenta pessoas, torna isso um assunto muito político e, desse modo, muito complicado vermos como podemos incluir melhor a participação dos nossos colegas de trabalho de modo a que sejam melhor representados.

Toda a exposição está exposta de maneira a que se possa interagir com tudo, e o espectador tem a escolha de mexer naquilo que quiser. Isso também vai de encontro com o tema, certo?

Inês Rodrigues – Uma das coisas que foi imperativa foi o facto de estes trabalhos serem para o espectador mexer, e desse modo, não estarem simplesmente deitados. São trabalhos editoriais, são para ser vistos, e o que seria terem neles o tema da politica e não se poder mexer? Isto é um objeto politico, comunica. Temos de pensar como é que o podemos apresentar como algo não tão simples, feito por todos.

Marta Gaspar – Resta a vocês também analisarem cada um destes trabalhos, pois ainda verão outros no outro núcleo, na Galeria de Belas-Artes, que vos levará a conhecer o que está por detrás da publicação onde nós estamos neste momento. E no próximo núcleo vão poder entender isso.

Foram vocês que organizaram os espaços de exposição?

Inês Rodrigues – Sim, nós tínhamos três grupos, um responsável pela exposição na galeria, um responsável pelo Website e um responsável pela publicação. Sempre trabalhámos em conjunto, na publicação, sobre os cartazes, convites, tudo o que vocês viram que anunciou a exposição, foi tudo criado por todos, pelo conjunto. Depois cada núcleo foi trabalhando na parte em que eram responsáveis.

No fim de três anos de licenciatura, qual é o balanço que fazem?

Marta Gaspar – Primeiro, seria bom voltar ao inicio porque parece que quando chegas ao fim queres voltar a fazer tudo de novo, porque quando se chega ao fim é que nos apercebemos que seria tão bom voltar a fazer tudo de novo. E a escola que ganhas até lá é uma experiência que gostarias de voltar a aproveitar.

Inês Rodrigues – Eu acho que no geral há muitos momentos em que vocês vão sentir que é demais, que é difícil, que não aguentam, mas vão sentir também ao longo de cada ano, – porque eles têm focos diferentes, enquanto que o primeiro ano é muito mais prático, o segundo é muito mais teórico e o terceiro equilibra a balança e dá-vos a responsabilidade toda – principalmente no terceiro, a importância disso e sentem a também a importância de terem trabalhado bastante a nível prático, num segundo ano mais a nível teórico para depois puderem desenvolver os vossos trabalhos com um cariz mais prático ou com um cariz mais teórico e consequentemente poderem distribuir não só pelo mercado. Uma coisa que aprendemos nesta faculdade é que devemos sempre equilibrar o lado teórico e isso é muito importante porque nós como designers, quando projetamos, não fazemos as coisas simplesmente, nós pensamos sobre elas – projetar é pensar sobre as coisas e pensar como é que cada qual se complementa. E o que se aprende é isso, é a criação de narrativas, histórias, perceber como é que se compõe uma mensagem e como é que se adequa essa mensagem ao meio, seja ele um cartaz, um livro, etc.

Marta Gaspar – Eu acho que mais importante do que isso é mesmo o pensar primeiro que é muito estranho “porque é que nós temos de falar sobre isso? Porque temos de conceptualizar tudo o que nos é dado?” e chegar ao fim e perceber que sem isso era impossível conseguir comunicar com as pessoas. A cima de tudo perceber o verdadeiro papel de um designer. Digo isto porque nós ainda não somos designers, pois só daqui a trinta quarenta anos é teremos que experiência suficiente para dizer que somos designers. Três anos de licenciatura não chegam para se dizer que se é designer. Só no fim é que vocês vão dar valor a tudo o que choraram, a todos os nomes que chamaram a outras pessoas, às diretas que fizeram, porque é que tiveram de raiva do professor Victor às quatro da madrugada, porque é que o video do trabalho não serve e se tem de fazer um novo, e tudo isso faz parte.

Inês Rodrigues – Nós, nesta exposição, acabamos por tornar isso mais explicito pois criámos um paralelismo entre o que é um curso – o nosso especificamente – e o que é isto da política, que é uma questão tão abismal, tão vertiginosa, e com isto de “E se a política acabasse amanhã?”. Eu acho que isso é a mesma coisa, porque vocês chegam ao primeiro ano e parece que tudo são questões deste tipo e não fazem ideia de como lidar com uma temática tão intensa. Nós mostramos na publicação – pois ela tem uma narrativa, uma história – que vocês começam por essa fase de dúvida, no segundo ano ganham coragem e percebem como podem reagir a todos os tipos de medos e angustias para no terceiro serem independentes e capazes de trabalharem sobre tudo o que querem.

 

File#2: Inauguração da Exposição “E se a política acabasse amanhã?” – Fabrica Features Lisboa

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Na passada sexta-feira (dia da inauguração na Fabrica Features Lisboa), a exposição dos finalistas de design de comunicação da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa atraiu bastante gente, não só alunos e professores mas também muitas outras pessoas de fora do ambiente escolar.

Esta é uma exposição que trata de “conhecer um tempo diferente” tempo esse que contribuirá para melhorar o próximo. Nela, podemos observar vários temas que se interligam uns com os outros de modo a construir o tema principal “E se a política acabasse amanhã?”. Nessas publicações, ficamos a conhecer o olhar destes finalistas sobre as várias formas de fazer política viajando entre o passado e o futuro.

A organização do espaço (também feita por eles) sugere-nos imediatamente a interação com os objetos e isso também se relaciona com o seu tema. Estes, que são maioritariamente objetos editoriais, são também objetos que por si só são bastante políticos. O que seria de nós se não olhássemos para eles?

File#2: Exposição de Finalistas de Design de Comunicação

E se a política acabasse amanhã? Design e a construção de futuro coletivo, é o nome da exposição de finalistas de Design de comunicação deste ano.

A exposição, com dois núcleos: um na Fabrica Features Lisboa de 14 de outubro a 11 de novembro e outro na Galeria FBAUL de 3 a 18 de novembro, e um conjunto de outras atividades fazem parte do trabalho realizado pelos finalistas. Eventos esses para não perder.

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PROGRAMA

14 outubro — 11 novembro

14 outubro
Inauguração na Fabrica Features Lisboa (18h).

29 outubro
Visita guiada “É uma casa portuguesa. De certeza?” e sessão de jogo “Eles andem aí. O jogo para todas as carteiras” no Arquivo 237.

2 novembro
Conversa no Arquivo 237.

3 — 18 novembro

3 novembro
Inauguração na Galeria de Belas-Artes (18h30).

8 novembro
Sessão de jogos: “Eles andem aí. O jogo para todas as carteiras” e “O jogo da crise” na Galeria de Belas-Artes.

10 novembro
Conversa em torno da publicação e do website na FBAUL.

14 novembro
Performances ‘Chegou o momento de construir’ — Ensaio geral para discursos políticos na Galeria de Belas-Artes.

16 novembro
Conversa com ex-alunos na capela da FBAUL.

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File#1: Conferência “Cartel politico en Chile: 1970-1973”, por Mauricio Vico

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 A década de 60 destacou-se pela agitação social e política em todo o mundo. No Chile, isto era sinal inequívoco da clausura imposta até então pela política daquela altura. Nesse momento conturbado, as diversas manifestações artísticas foram a chave para a elaboração do caminho para o socialismo, especialmente durante o governo de esquerda de Salvador Allende. É por causa destas manifestações artísticas relacionadas com o governo de Allende que Mauricio Vico (designer, professor e investigador do Departamento de Design da Universidade do Chile) veio conversar connosco sobre o cartaz chileno nas suas fases revolucionárias, nomeadamente durante a revolução chilena de 1970 – 1973.

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Yo estoy con el Compañero, autor desconhecido, 55 x 77 cm, impressão offset, 1970

O cartaz chileno teve uma enorme  importância  durante a revolução chilena dos anos 70. Este servia como objeto chave para a propaganda política da ditadura e democracia chilena e tinha como temas principais a liberdade, pátria, desonra, injustiça, passado glorioso e história da nação, recorrendo sempre ás ideias e inspiração dos militantes, políticos e cidadãos. Mauricio Vico, reuniu uma série de exemplos de grande valor gráfico e explicou-nos tanto a importância dos mesmos consoante o contexto histórico como as técnicas usadas naquela altura.

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Brigadas Ramona Parra – MAC, autor desconhecido, 55 x 77 cm, impressão offset, 1971

 Um dos cartazes que exemplifica bastante bem o “estilo” do cartaz político chileno tem o nome de “Brigadas Ramona Parra – MAC”. Este cartaz é uma serigrafia (técnica muito usada) de 1971 e de autor desconhecido, e nele está representada mulher como símbolo da igualdade, a foice e o martelo como símbolo dos trabalhadores e do povo e o punho fechado símbolo internacional dos antifascistas. A sua composição, assim como a escolha das cores, lettering e os próprios desenhos fazem deste um cartaz hibrido, tal como Mauricio Vico disse na conferência, no sentido em que nele conseguimos ver todas as influências do cartaz chileno: a pop art, o cartaz cubano, a arte psicadélica e a influência artística dos EUA em geral.

O designer e professor, não nos   deixou ir embora sem ainda nos falar do cartaz politico chileno de 2006 a 2011. Após a guerra civil de 1973, impôs-se o governo do general Pinochet, um governo de direita, que fez com que se desenvolvessem movimentos estudantis. Ainda hoje, os estudantes mostram-se descontentes, principalmente com os direitos na educação, e através dos posters dão conta do distanciamento dos políticos, tal como antigamente. A parte disso, quais são as diferenças dos cartazes de Allende para os de pós Pinochet? Hoje, são cartazes coletivos, cada vez mais duros e frontais, representam a crise, a rebelião, o descontentamento e fazem de propaganda a manifestações que terminam sempre em violência. Apesar do uso de lettering manuscrito, o poster chileno continua a ser muito claro e proporciona sempre uma boa leitura.

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Recuperar el Cobre, Comando Gráfico Recarraben, 96,8 x 65,7 cm, impressão offset, 2011

Esta conferência transmitiu um bom olhar sobre a situação política do chile nos dias de hoje e antigamente, e a importância das artes gráficas, nomeadamente o design, como imagem dos ideais políticos. Apesar das diferenças linguísticas, Mauricio Vico conseguiu manter uma boa relação entre orador/espectador e apresentou o tema de modo a que toda a informação necessária fosse referida.