File#3: III Edição dos Encontros de Design de Lisboa

Na sua terceira edição, os Encontros de Design de Lisboa puderam contar com oito oradores, provenientes das áreas do design, da arquitetura e ilustração, que nos trouxeram os mais variados temas inseridos no conceito escolhido para os encontros deste ano: DESIGN, IDENTITY AND COMPLEXITY. Muito mais do que através da presença destes designers e arquitetos, estes Encontros de Design, fizeram-se sentir do outro lado do palco, onde o número de espectadores era superior àquele que o Grande Auditório da FBAUL podia suportar.

De entre as oito palestras apresentadas, as que me captaram mais interesse foram a de Mario Trimarchi (The smiling objects) e a de Teal Trigs (Sites of graphic design criticism: new spaces, new critics).

The Smiling Objects

Mario Trimarchi é um arquiteto e designer italiano que, para além de pertencer à geração “à mão livre”, acredita que o desenho tem um papel importantíssimo pois permite-nos entender melhor as coisas que nos rodeiam. Para além de ter feito parte dos mais variados ateliers, o arquiteto designer, criou uma série de produtos paradigmáticos. É sobre esses e outros trabalhos seus que Mario veio conversar e dar a conhecer o seu método de criação.

Mario, começou por uma pequena reflexão sobre a nossa ligação com os objetos, questionando “porque vivemos em conjunto com estes objetos?”. Estamos habituados a pensar que por detrás da cada objeto há uma história quando talvez por detrás dos objetos não exista absolutamente nada, e possivelmente só os estaremos a ajudar a passarem de moda, a esgotarem a sua própria função. O designer explica ainda que talvez fosse melhor concentramo-nos menos nos objetos. No entanto enquanto designers, Trimarchi afirma que o ideal seria pensar em projetá-los corretamente e não com um propósito necessário, pois só assim eles serão capazes de sorrir para nós, nem que seja ocasionalmente.

Esta reflexão veio a propósito de entender melhor o seu ponto de vista e consequentemente o seu método de trabalho, este, que teve sempre por base a sua investigação aprofundada sobre o desenho, fê-lo criar uma série de objetos paradigmáticos. Os projetos surgiam de desenhos que o designer fazia com o intuito de entender certos aspetos das coisas, e como a incerteza e estabilidade, as mudanças e imprevisíveis assimetrias poderiam fazer parte de objetos físicos. Então, para começar, mostrou-nos o seu trabalho Intanto (em inglês, in mean time) um conjunto de três vasos.

Este trabalho surgiu de uma auto proposta do designer que sugeria desenhar o silêncio, para isso, desenhou as nuvens e com isso entendeu melhor brevidade das coisas. Isso remeteu o seu pensamento para a curta vida das flores quando colhidas para passarem o resto das suas vidas em vasos.

“Flowers, when cut, are accompanied with extreme lightness in this unexpected extension of life in the homes of human beings. These vases are like drops of dew trapped in almost invisible spiderwebs; they float, suspended and very fragile, to silently measure the time and beauty of existence.” – Mario Adicionar ao dicionário

INTANTO-visual-41-890x500.jpg
Intanto, Mario Trimarchi

 

Intanto un fiore, Intanto pochi fiore e Intanto molti fiore diferenciam-se pelo seu tamanho e estrutura metálica que varia em função da quantidade de flores adequadas a se inserirem nestes recipientes. Esta escolha das flores consoante o vaso tem de ser muito cuidadosa, pois cada um deve levar a flor certa, caso contrário colapsa devido ao excesso de peso exercido. Essa é uma metáfora retirada da brevidade incerta da vida das flores, tal como das nuvens. Intanto deixa que a vida das flores se mantenha in mean time como que suspensa no tempo. Mario Trimarchi referiu ainda que, quando as pessoas adquirem estes vasos, perguntam se as caixas estão vazias, tal não é o pouco peso que estes possuem.

Desenhar as ilhas faria agora o designer desenvolver uma espécie de formas de cozinha. Estas apresentam uma forma irregular baseada nos estudos de desenho que Mario desenvolveu. Esta vontade de desenhar as ilhas surgiu de uma lenda que o fez olhar para elas de maneira diferente. A vontade de as decifrar por completo criou essas formas, que aparentam ter a forma de pequenas ilhas com castelos, em silicone branco e preto, prata e cobre, têm como objetivo fazer qualquer um sentir-se criativo.

“These molds are like precious little works of architecture, a bit fossils, a bit contemporary. Islands to put on the table like shiny, expected sand castles containing compositions of foods, magnificent in their ambition, fleeting in their glory.” – Mario Trimarchi

Também muito interessante, foi a criação de uma coleção de objetos aritméticos gerados pela obsessão de desenhar o vento. La Stanza dello Scirocco, é o nome da coleção destes produtos assimétricos com grandes sombras que constroem um novo paradigma para um modo de vida instável, mas otimista. O conceito de desenhar o vento levou o designer a pensar em castelos de cartas. Estes, quando os deixamos de pé, desabam se existir a mais pequena ventania, e essa estrutura instável dispersa-se, de uma maneira algo poética.

Dentro desta coleção, inserem-se fruteiras, candeeiros e peças de joalharia. Cada um dos objetos parecem ser levados pelo vento, quando expostos nesse objeto que transmite sensações de movimento (é o caso das uvas que aparecem na imagem abaixo).

 

STANZA-DELLO-SCIROCCO-procuts-520x640.jpg
La Stanza dello Scirocco

Trimarchi revelou-se um ótimo designer, distinguido com prémios, e um ótimo orador, já que captou toda a atenção do público presente.

 

Sites of graphic design criticism: new spaces, new critics

Teal Triggs é professora de Design Gráfico e Diretora Associada da School of Communication do Royal College of Art, em Londres. Como historiadora, crítica e docente de Design Gráfico, já proferiu diversas palestras, divulgando amplamente o seu conhecimento. Teal, veio assim falar-nos do papel da crítica do design gráfico.

Teal-Triggs-1024x460.jpg
Teal Triggs

 

Triggs, começou por explicar que esta área de estudo ainda é subdesenvolvida quando comparada a outras áreas como a literatura, história de arte e arquitetura. No entanto, afirma ainda que, ao longo da história do design gráfico contemporâneo, a crítica tem sido omnipresente no processo de design – seja na prática, através dos briefings e propostas oferecidas pelos clientes ou na própria pesquisa de trabalho, adotando métodos críticos e especulativos.

Apesar disso, Teal contou-nos que o papel estabelecido para os críticos profissionais de design gráfico permanece indescritível, ou seja, só alguns alcançam essa posição. Rick Poynor é um dos poucos que alcançou essa posição. Embora tenhamos a necessidade que existam críticos, não nos devemos esquecer das maneiras únicas pelas quais o discurso crítico surgiu por meios alternativos. Esta área cresceu através das exposições, publicações independentes e mídias sociais. A design alertou-nos para o facto de que não devemos subestimar o valor de textos críticos e críticas visuais feitas por profissionais de design como Kenneth Fitzgerald e Michael Golec.

Teal Triggs tomou como ponto de partida o modelo de Christopher Frayling (escritor e professor inglês) da pesquisa de design e aplicou-o à prática da crítica. Tentou mostrar-nos o que podemos aprender para a crítica do design gráfico, sendo que estamos numa era cada vez maior no que toca à complexidade da informação.

No fim da palestra, já num tom mais descontraído, Teal apelou a que, num próximo ano em que voltasse à FBAUL nós, alunos, estivéssemos mais críticos.

Advertisements

Sinopse do Filme dos poetas

Pouco iluminado é o espaço onde o grupo se reúne. Duarte Corvo, Maria Capaz, Maria Felicidade, Gaspar Montalvão, Creta de Campos, Álvaro Portilha, Elizabeth e Roberto são os poetas membros desse grupo, pessoas diferentes do resto da sociedade, rejeitadas por aquilo que é o padrão desta. Naquele local, os oito poetas vão chegando e sentando-se nas apenas oito cadeiras existentes. Ao citarem os poemas escolhidos para aquela madrugada dão por falta de Maria Capaz e refletem sobre isso. Heis o inicio de uma discussão em volta da razão pela qual se encontram naquele local. Não se percebe se chegarão a algum lado, mas vão discutindo, uns exaltados, outros isolados e muito marcados pela falta de Maria Capaz.

Tertúlias (definição), e movimento DADA

O conceito de tertúlia descreve um encontro entre amigos, familiares ou apenas indivíduos que frequentam o mesmo estabelecimento, que se juntam com o propósito de discutir temas que vão deste a atualidade, à política e futebol até aos mais simples e vulgares assuntos de uma aldeia.

Foi essencialmente a partir do séc. XX que este tipo de reuniões ganharam uma maior força em Portugal. Estas aconteciam em cafés como A Brasileira e o Nicola, onde se reuniam personalidades como Alexandre Herculano, Bocage, Almada Negreiros, Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro, discutindo a política, a atualidade, a arte e a cultura.
Assim, tendo por base este conceito, prosseguimos para uma chuva de ideias que nos permitiu colocar todos os poetas escolhidos por cada membro do grupo num só local, como se de um encontro entre poetas se tratasse. 

Por outro lado, decidimos também tomar como referência o movimento DADA, mais concretamente o processo de formação e desenvolvimento deste movimento. Iniciado em 1916 na cidade de Zurique, no estabelecimento de Hugo Ball designado de Cabaret Voltaire, (onde se reuniam artistas, escritores e intelectuais) deu-se início àquele que seria o movimento de vanguarda que mais iria contra as regras e padrões impostos pelos anteriores movimentos. A palavra “DADA”, embora em francês signifique “cavalo de madeira”, a sua utilização é considerada non-sense, ou numa falta de sentido ligada com a linguagem e, nesse sentido, é desse modo que interligamos o dadaísmo com o nosso grupo de poetas, pois esse non-sense aplica-se à junção dos outros uns com os outros.

O poeta Álvaro de Campos

Álvaro de Campos nasceu em Tavira ou Lisboa a 13 ou 15 de outubro de 1890-1935. Este é um dos heterónimos ou até mesmo alter ego de Fernando Pessoa. Como alter ego de Pessoa, Álvaro de Campos sucedeu a Alexander Search, um heterónimo que surgiu ainda na Africa do Sul, onde Pessoa passou a infância e adolescência. Depois de “uma educação vulgar de liceu” Álvaro de Campos foi “estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval” em Glasgow, realizou uma viagem ao Oriente, registada no seu poema “Opiário”, e trabalhou em Londres, Barrow on Furness e Newcastle Upon Tyne (1922). Desempregado, teria voltado para Lisboa em 1926, mergulhando então num pessimismo decadentista. O poema “Tabacaria”, de 1928, foi uma das criações de Álvaro de Campos.

Poema de Álvaro de Campos “Se te queres matar”

Este é o poema escolhido para a criação do Bairro do Outro e do Poemário:

Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria…
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente…
Talvez, acabando, comeces…
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém…
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te…
Talvez peses mais durando, que deixando de durar…

A mágoa dos outros?… Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão…
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros…

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada…
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas…
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além…
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido…
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia…

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos…
Se queres matar-te, mata-te…
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! …
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbihonantes
Do vácuo dinâmico do mundo…

Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa