File#2: Por detrás da exposição – Entrevista com Marta Gaspar e Inês Rodrigues, finalistas de Design de Comunicação

No dia de inauguração da exposição “E se a política acabasse amanhã?” no núcleo da Fabrica Features Lisboa, tive a oportunidade de conversar com duas finalistas de design de comunicação, Marta Gaspar e Inês Rodrigues, e perceber um pouco melhor não só um ponto de vista mais pessoal, mas também (e principalmente) o que esta exposição carrega em si.

Qual o processo mais importante na realização deste trabalho?

Marta Gaspar – O mais importante é perceber primeiro o que é a política. Perceber a importância que esta tem nos dias de hoje, o que é a politica na nossa vida. Perceber também o que podemos fazer de diferente para que o amanhã seja melhor. Perceber que cada um faz parte de um todo. Não é sempre só um indivíduo que vai fazer o dia de amanhã. E perceber que o que está para trás na história e o porquê dela, é super importante, é quase como se fossem uns alicerces para o futuro.

Qual foi a principal dificuldade durante todo o processo de trabalho?

Inês Rodrigues – Foi mesmo lidar com o tema, tendo uma temática tão densa como a politica, podes cair muitas vezes na ideologia, que é uma coisa que nada nos serve, nada me servia a mim trazer qual é que é a minha ideologia, e foi esse o desafio, foi mesmo muito difícil conseguirmo-nos afastar do pensamento ideológico e percebermos o que é que é relevante para os temas conseguirem ser identificados de qualquer ponto de vista, através de qualquer tipo de energia. Por isso é que nós mencionamos muitas vezes a ideia de construção de um titulo. É mesmo isso, porque, “E se a política acabasse amanhã? tu confiavas a burocracia a um outro ser, esquecendo que tu és dono de ti próprio e a construção do titulo significa que tu deves ter noção do individuo e que deves seguir as tuas vontades e como é que tu podes contribuir para um todo. Isso é que é colectivo, é perceberes como te consegues adaptar aos outros e todos em conjunto perceberem como é que conseguem construir algo novo em vez de confiarem tudo ao destino.

Marta Gaspar – Acho que a maior dificuldade é também perceber o que é a politica de modo a não deixar as pessoas caírem na ideia de que isso implica ser de um partido. Isso é o mais difícil.

Inês Rodrigues – Porque tudo é politico: o pessoal é politico, as ideias são politica, crises, coisas sexuais, tudo é politico e isso é uma coisa que as pessoas muitas vezes ignoram e pensam que a politica só acontece ali, no parlamento, e pensam que a participação politica resume-se ao voto, ao dia em que se chega e se mete um papelinho na urna e acaba ali. Nós devemos mostrar que isso é errado, pois a participação politica é todos os dias.

Sendo que este foi um trabalho colectivo, como foi lidar com as concordâncias e discordâncias?

Marta Gaspar – Isso é como tudo e como qualquer trabalho. Principalmente quando envolvemos um tema como a politica, como é óbvio partiu de nós a tentativa de nos afastarmos da opinião formada por uns e outros, porque depois tens um fundamento muito diferente e acabas por não trabalhar diretamente o mesmo tema que os outros. Claro que discordámos todos ao início e é inevitável isso não acontecer.

Inês Rodrigues – É o dilema natural de trabalhar em algo como o design, que trabalhas com gosto, em que o belo é difícil e subjetivo, e a Marta e eu, que trabalhámos na publicação, vimos que pode ser muito difícil resolver questões simples como por exemplo que tipo de letra preferes, que entre-linha preferes, mas é isso que nós enaltecemos outra vez, ou seja, nós vamos ter de abdicar de outras coisas muito pessoais e perceber como conseguimos contribuir para um todo, para trabalhar um esquema coeso. Foi muito difícil trabalhar num tema como a politica e a democracia e nós, oito pessoas, a representarmos uma turma de cinquenta pessoas, torna isso um assunto muito político e, desse modo, muito complicado vermos como podemos incluir melhor a participação dos nossos colegas de trabalho de modo a que sejam melhor representados.

Toda a exposição está exposta de maneira a que se possa interagir com tudo, e o espectador tem a escolha de mexer naquilo que quiser. Isso também vai de encontro com o tema, certo?

Inês Rodrigues – Uma das coisas que foi imperativa foi o facto de estes trabalhos serem para o espectador mexer, e desse modo, não estarem simplesmente deitados. São trabalhos editoriais, são para ser vistos, e o que seria terem neles o tema da politica e não se poder mexer? Isto é um objeto politico, comunica. Temos de pensar como é que o podemos apresentar como algo não tão simples, feito por todos.

Marta Gaspar – Resta a vocês também analisarem cada um destes trabalhos, pois ainda verão outros no outro núcleo, na Galeria de Belas-Artes, que vos levará a conhecer o que está por detrás da publicação onde nós estamos neste momento. E no próximo núcleo vão poder entender isso.

Foram vocês que organizaram os espaços de exposição?

Inês Rodrigues – Sim, nós tínhamos três grupos, um responsável pela exposição na galeria, um responsável pelo Website e um responsável pela publicação. Sempre trabalhámos em conjunto, na publicação, sobre os cartazes, convites, tudo o que vocês viram que anunciou a exposição, foi tudo criado por todos, pelo conjunto. Depois cada núcleo foi trabalhando na parte em que eram responsáveis.

No fim de três anos de licenciatura, qual é o balanço que fazem?

Marta Gaspar – Primeiro, seria bom voltar ao inicio porque parece que quando chegas ao fim queres voltar a fazer tudo de novo, porque quando se chega ao fim é que nos apercebemos que seria tão bom voltar a fazer tudo de novo. E a escola que ganhas até lá é uma experiência que gostarias de voltar a aproveitar.

Inês Rodrigues – Eu acho que no geral há muitos momentos em que vocês vão sentir que é demais, que é difícil, que não aguentam, mas vão sentir também ao longo de cada ano, – porque eles têm focos diferentes, enquanto que o primeiro ano é muito mais prático, o segundo é muito mais teórico e o terceiro equilibra a balança e dá-vos a responsabilidade toda – principalmente no terceiro, a importância disso e sentem a também a importância de terem trabalhado bastante a nível prático, num segundo ano mais a nível teórico para depois puderem desenvolver os vossos trabalhos com um cariz mais prático ou com um cariz mais teórico e consequentemente poderem distribuir não só pelo mercado. Uma coisa que aprendemos nesta faculdade é que devemos sempre equilibrar o lado teórico e isso é muito importante porque nós como designers, quando projetamos, não fazemos as coisas simplesmente, nós pensamos sobre elas – projetar é pensar sobre as coisas e pensar como é que cada qual se complementa. E o que se aprende é isso, é a criação de narrativas, histórias, perceber como é que se compõe uma mensagem e como é que se adequa essa mensagem ao meio, seja ele um cartaz, um livro, etc.

Marta Gaspar – Eu acho que mais importante do que isso é mesmo o pensar primeiro que é muito estranho “porque é que nós temos de falar sobre isso? Porque temos de conceptualizar tudo o que nos é dado?” e chegar ao fim e perceber que sem isso era impossível conseguir comunicar com as pessoas. A cima de tudo perceber o verdadeiro papel de um designer. Digo isto porque nós ainda não somos designers, pois só daqui a trinta quarenta anos é teremos que experiência suficiente para dizer que somos designers. Três anos de licenciatura não chegam para se dizer que se é designer. Só no fim é que vocês vão dar valor a tudo o que choraram, a todos os nomes que chamaram a outras pessoas, às diretas que fizeram, porque é que tiveram de raiva do professor Victor às quatro da madrugada, porque é que o video do trabalho não serve e se tem de fazer um novo, e tudo isso faz parte.

Inês Rodrigues – Nós, nesta exposição, acabamos por tornar isso mais explicito pois criámos um paralelismo entre o que é um curso – o nosso especificamente – e o que é isto da política, que é uma questão tão abismal, tão vertiginosa, e com isto de “E se a política acabasse amanhã?”. Eu acho que isso é a mesma coisa, porque vocês chegam ao primeiro ano e parece que tudo são questões deste tipo e não fazem ideia de como lidar com uma temática tão intensa. Nós mostramos na publicação – pois ela tem uma narrativa, uma história – que vocês começam por essa fase de dúvida, no segundo ano ganham coragem e percebem como podem reagir a todos os tipos de medos e angustias para no terceiro serem independentes e capazes de trabalharem sobre tudo o que querem.

 

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Author: 60pontos5paicas

Communication Design at Fbaul.

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