O flâneur e o voyeurismo, estão presentes no cinema e na literatura? – Parte 1

Muitas vezes os cineastas e escritores servem-se de significados como flâneur e voyeurismo para construírem realidades ficcionais e metafóricas. Podemos até pensar que, de alguma forma, todo o cinéfilo é voyeur e flâneur, pois vai ao cinema para ver e viver outras vidas/outras pessoas durante um bom par de horas.

Cesário Verde é um excelente exemplo do flâneur. Ele deambula pela cidade, observando e registando de maneira impressionista o que vê, o que sente, o que pensa. No poema Num Bairro Moderno vemos que o poeta é, em alguns momentos, um flâneur que não tem medo de se misturar com a multidão e que, depois de observar a mulher regateira e trabalhadora, interage com a senhora. Desta forma, Verde partilha a mesma personagem intelectual que Baudelaire: a cidade e as suas imagens, as ruas e as avenidas. Em simultâneo distancia-se de Baudelaire porque se insere na sociedade de maneira diferente. Enquanto Baudelaire a despreza, Cesário ainda se deixa tomar por ela.

E se existe um Cesário Verde, também existem outros como Ricardo Reis (de Pessoa e de Saramago). Este também deambula pela cidade ficando no limiar entre o que caminha mas já sem prazer e o flâneur, como aquele que caminha observando sem perder a sua individualidade. Ricardo Reis, caminha pela cidade de Lisboa, completamente à deriva, enquanto reflecte sobre a verdade, e desenvolve o seu intelecto, especulando, rejeitando. Assim, vive como um fantasma, inerente à multidão, como se de um detective se tratasse. É possível criar um mapeamento dos percursos de Ricardo Reis pela cidade de Lisboa, e a sua própria identidade é a de um flâneur baudelairiano.

No cinema, Before Sunrise (1995) de Richard Linklater é outro exemplo da flânerie. Este conta a história de amor de Jesse (Ethan Hawke), jovem americano, e Celine (Julie Delpy), uma estudante francesa. Jesse, começa a conversar com Celine num comboio com rumo a Viena e convence-a a desembarcar com ele, mas com o compromisso de que ela terá de voltar a Paris e ele aos Estados Unidos no dia seguinte. Como consequência disso, os dois terão de aproveitar ao máximo o tempo que lhes resta. Durante todo o filme, os personagens caminham juntos pela cidade, conversando, observando e especulando sobre os mais variados temas. Através da maneira como se comportam, conseguimos identificar o espírito da flânerie, pois estão tão envolvidos um com o outro que funcionam como as almas fantasmagóricas de baudelaire a caminhar no seu próprio mundo, “longe” da multidão. A dinâmica entre Jesse e Celine demonstra a paixão entre eles, e deixa-nos envolver na flânerie durante todo o filme.

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Before Sunrise de Richard Linklater, 1995

Le Ballon Rouge (1956) é uma média-metragem de Albert Lamorisse. Este é um filme que nos mostra a flânerie transmitida por um balão através da história de um menino, Pascal, que se depara com um balão vermelho e que, depois de brincar com ele, se apercebe de que o balão tem vida própria. A partir desse momento, o balão segue Pascal pelas ruas de Paris acompanhando-o pela cidade. Os percursos percorridos pelo menino e a vontade do balão passar despercebido descrevem também essa flânerie.

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Le Ballon Rouge de Albert Lamorisse, 1956

Estes são só alguns exemplos do flâneur existente na cultura contemporânea. Mas e o voyeur? Como se comporta no cinema e na literatura? É possível encontrá-lo?

(continua em O flâneur e o voyeurismo, estão presentes no cinema e na literatura? – Parte 2)

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Author: 60pontos5paicas

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