Um guião sem diálogo

Por vezes, optar por criar um guião sem diálogo, ajuda a traduzir melhor a ideia a projetar. Os guiões não transcrevem apenas os diálogos de um filme mas também todas as ações.

Um dos melhores guiões criados sem uma única palavra é de Strangers. Este é um dramático filme de 7 minutos, sem diálogos. Strangers ganhou os melhores prémios de 2004, nos Festivais de Cinema de Aspen, Palm Springs e Sundance.

No metropolitano francês, um jovem que usava uma Estrela de Davi, sentou-se em frente a um outro jovem que se encontrava a ler um jornal impresso em árabe. Eles vão olhando um para o outro com um ar de desconfiança. Três outros homens que exibem cabeças rapadas e tatuagens neonazistas visam o homem que lê o jornal, e começam a intimidar pintando o jornal com spray e enfiando uma bota seu assento.

O telefone do primeiro homem toca uma música em hebraico e, posto isto, os neonazistas viram-se agora para ele. Já em atos de violência os dois homens correm em direção às portas da carruagem, numa tentativa de fugir enquanto os neonazistas os perseguem. Ambos os homens conseguem fugir antes que os outros os conseguissem apanhar. Já fora da estação, cada um dos homens celebra brevemente o seu triunfo e seguem diferentes caminhos.

Sem uma palavra dita, as tensões entre muçulmanos e judeus e o preconceito generalizado que ambos enfrentam são efetivamente representados através somente da ação.

Strangers (2004) – curta-metragem de Erez Tadmor e Guy Nattiv

Esta curta-metragem utiliza as ações e a cinematografia para expressar os significados da história, sem precisar de uma única fala.

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File#2: Visita guiada “É uma casa portuguesa. De certeza?” e sessão de jogo “Eles andem aí. O jogo para todas as carteiras” no Arquivo 237

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É uma casa portuguesa. De certeza? foi a questão imposta no início deste roteiro, integrado no programa relacionado com as exposições E se a política acabasse amanhã? dos finalistas de design de comunicação da FBAUL, alertava à falsa Lisboa, criada pelo excesso de turismo, apelando ao pensamento político de modo consciente e informado.

A visita guiada, com início na Fabrica Features, levou-nos por uma rota de pontos comerciais onde o principal consumidor é o turista e não o cidadão português. Lisboa está na moda, e acolhe cerca de cerca de 35 mil visitantes por dia e, como consequência disso, o comércio apropria-se do que é o produto tradicional criando novos produtos turísticos, estes, vendidos como autênticos.

O primeiro ponto comercial foi a Padaria Portuguesa, esta tem o conceito de trazer o que eram as padarias tradicionais do antigamente. No entanto, para além dos preços nada convidativos para os portugueses, toda a sua imagem também como os seus produtos, fazem com que nada seja bem tradicional mas sim uma nova versão do tradicional, uma destinada apenas ao turismo, destinada àqueles que enchem a baixa lisboeta com o desejo de experimentar o que de mais há português e alfacinha. De seguida, chegámos à Manteigaria. Antigamente esta fazia parte de uma manteigaria, mas recentemente reabriu como sendo uma fábrica de pastéis de nata, e o seu principal objetivo era ultrapassar os famosos pastéis de Belém. Neste pequeno espaço, é quase impossível meter um único pé, pois encontra-se, durante todo o dia, atolado de turistas ansiosos por experimentar estes pastéis. A manteigaria que antes se destinava a comercializar queijos e manteigas, vende agora caixas de pastéis de nata e pouco mais: café, chá, copos de ginjinha e leite com chocolate.

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Os próximos locais passavam por uma série de lojas de souvenires, estas que em maior parte, eram de comerciantes estrangeiros, com produtos de baixa qualidade e baixo custo vendidos por preços exorbitantes. De entre estes produtos encontravam-se, por exemplo, fatos de banho com a bandeira de Portugal. Foi destes pormenores que os finalistas nos deram a conhecer, como que de um abre olhos se tratasse. Depois de uma casa de fados, a Bairro Arte surgia numa esquina, já dentro do Bairro Alto. Nessa altura, questionavam-nos “porquê abrir uma loja deste tipo, no Bairro Alto?” a resposta era muito semelhante às anteriores dadas, o consumo turístico é o principal investimento dos pontos comerciais que se encontram em Lisboa nos dias que correm. Assim, a visita guiada terminou na Rua da Misericórdia, diante de mais uma loja, onde as sardinhas enlatadas são feitas de chocolate e os Santo António vermelhos e cor de rosa.

Apesar da pouca preocupação acerca de se fazerem ouvir por todos os membros do grupo, e da visita guiada ter problemas na organização do seu conteúdo, a ideia estava lá, e o conceito da visita guiada “não normal” era interessante do ponto de vista de uma política que carece desta nova falsa Lisboa, tão forçada e centrada no turismo.

“Eles andem aí”, no Arquivo 237.

Este era um jogo que tinha a ética e o lucro como principais preocupações. O jogo “Eles andem aí” foi jogado sob a forma de equipas, em que as personagens do jogo eram: Maria, CEO de uma grande empresa e José, um consumidor com necessidades comuns.

De início, as equipas discutiram entre si quem deveria começar o jogo. Chegámos ao consenso de que deveriam ser as Marias a começar. Assim deu-se início ao que seria um jogo em formato de debate, entre duas equipas, sobre uma série de questões fundamentais ligadas à ética ou ganância de um indivíduo, de modo a que, também, ficássemos com uma ideia do que é o pensamento politicamente correto.

Este era um jogo bem desenvolvido não só do ponto de vista comercial, mas também do ponto de vista do design de comunicação, não só pelo seu formato e imagem mas também por essa vertente comunicativa que o jogo carrega.

De porta fechada, as Marias e os Josés, debatiam sobre qual as melhores decisões a tomar perante as situações mais difíceis.

Notas de Corvo, nº58

“Vivo no nº22 no Largo do Intendente. Durante o dia passa lá muita gente, durante a noite são mais as prostitutas quem me pede um cigarro. Essas não têm medo… Vítimas fáceis… Só quando não o faço à algum tempo é que as levo comigo. Pensam elas que é para trabalho..mas não.

Hoje, ao fazer a barba, quase me degolei. Vontade não me faltava, ouvia uma voz que dizia “não vales nada, nojento, MATA-TE! mata-te!” Fui para a rua ainda sangrava… estraguei mais uma das minhas camisas (desta vez, comigo), ainda bem que era de noite. Ninguém me viu, só os gatos nos telhados”

“Corvo”: Sinopse

FILME DO OUTRO: Corvo (2016)

Duarte Corvo (27 anos) sofre de esquizofrenia, doença que não só o torna agressivo como também o faz viver uma realidade imaginária. Todos os dias, deambula pela cidade de Lisboa, onde reside, em busca de saciar a sua sede de corvo. Entretanto, algumas pessoas cruzam-se no seu caminho. Enquanto caminha, observa-as e estuda-as, essas agem normalmente mas para corvo, todos os sons,  gestos e manias se tornam perturbantes. Nesses momentos há sempre a possibilidade de acontecer uma tragédia.

Quem é Duarte Corvo?

Duarte Corvo tem 27 anos e vive no Intendente. Aos 20 anos começou a ter alucinações e a ouvir vozes, nesse momento o seu comportamento mudou, sofria de esquizofrenia.

A esquizofrenia, como doença que desorganiza os processos mentais, causa-lhe problemas ocupacionais, afetando a perceção, as emoções e o pensamento. Assim, Corvo perdeu completamente a sua identidade e tornou-se um predador. Este Outro, vive a atualidade sem a sentir, acreditando que está nos anos 50 (uma obsessão que tinha com esse tempo), anda sempre de fato, com as calças suspensas por um par de suspensórios e gosta de deambular pela zona histórica de Lisboa em busca do seu prazer e de uma espécie de refugio.

Corvo, acredita ser um gangster envolvido em esquemas de proteção, chantagem e prostituição, embora não pratique mais do que homicídio. As vozes fazem-no ser agressivo, e como corvo que é, não se apercebe que as poucas pessoas que falam com ele se sentem atraídas pelo seu aspeto, o seu charme, e caem nas mãos de um assassino, que mata sem ter qualquer tipo de sensação. Mata porque sim. Justifica as suas mortes como sendo um osso do oficio.

É um homem com caracter individualista, não gosta de patriotismos nem se interessa por política,Corvo, foge de casa para tentar fugir aos seus demónios que se tornam mais fortes entre quatro paredes. Gosta de beber e fumar cigarros enquanto observa uma imensidão de gente. Escreve, mas escreve pouco, pois as alucinações não permitem que tenha um raciocínio conciso e sucinto.

Tem vícios e manias, isso também se vê na maneira como comete os seus crimes…

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Corvo, Duarte Corvo

“Aparentemente sou O Outro. Isto tudo quando nem sequer sei quem realmente sou. Não gosto que me chamem gangster, sou um homem com princípios. Tenho os meus negócios e gosto de me vestir bem. Que mal vedes nisso?

Ao passar pelas ruas, sinto que já não são as mesmas, as vozes dizem-me que não e eu acredito, ás vezes não quero, mas acredito. Observo raparigas, mulheres, homens e velhotes… vós agis de maneira estranha… intriga-me, enxergo-vos a olhar-me, mas sou-vos invisível. É o que me parece, não quero saber. Tenho sede de whisky e sede de corvo. Talvez esta noite….falem só mais baixo…”

– Caderno de Corvo, nota 59

O Corvo

O corvo é um animal omnívoro, por vezes necrófago, de plumagem negra. Este animal, é dotado de inteligência e certos comportamentos comprovam isso, como exemplo, o facto deste animal projetar sementes para o meio da estrada de uma cidade, para quando não as conseguirem partir, os carros partirem.

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Em todo o mundo, o corvo sempre teve grande valorização. A sua cor negra é associada à ideia de principio, a sua característica aérea associa-se ao céu, ao poder, ao criador, às forças espirituais, como que um mensageiro.

Um mito grego conta que o corvo era uma ave branca. Este tinha sido colocado por Apolo para servir de guardião à sua amada Coronis que, embora estivesse grávida, quando o corvo se descuidou, fugiu para trair o deus com Isquis. Por essa razão, Apolo castigou o corvo e tornou-o negro.

Outro mito grego, conta-nos que um corvo foi forçado a ir buscar água para uma cerimónia dos deuses mas, durante o caminho, atrasou-se por esperar que uma figueira, que já cobiçava à algum tempo, amadurecesse. Para castiga-lo, os deuses não lhe deram água durante todo o verão, o que lhe valeu a rouquidão do crocitar dos corvos.

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Na Europa Cristã, o corvo deixou de ter uma boa conotação. Este, adquiriu uma simbologia sinistra e ligação aos maus espíritos. Shakespeare faz inúmeras menções ao corvo como ave agourenta: acreditava-se que o esvoaçar de um corvo a crocitar em redor de uma casa com alguém doente, era sinal de morte iminente. Esse relacionamento com a morte vem da sua característica de necrófago.

Na França, estes animais, eram considerados as almas dos padres e das freiras perversas. Na Alemanha, eram vistos como a reencarnação das almas condenadas. Na Dinamarca, pensava-se que se se visse um corvo com um buraco na asa, e se olhássemos através desse buraco, também nos transformaríamos num corvo.